O pai, a traição e o assassino de azul

Sophie cantava com toda paixão e ódio que conseguia, como uma válvula de escape onde se sentia livre como nunca.

O  bar começou a chamar mais atenção dos locais, aumentando o movimento e a circulação de dinheiro graças aos shows e ao talento daquela pequena mulher.

Uma de suas primeiras músicas falava de Jerry Jones, um operário que trabalhava na madeireira, casado com Lucille  e pai de Amelie.

Jerry fazia seu limite de horas extras para que sua esposa pudesse ficar mais tempo em casa cuidando de Amelie. Um dia foi mandado para casa, a nevasca não possibilitou seu trabalho, forçando-o a voltar para casa no meio de seu expediente. Chegando em casa vê uma viatura policial estacionada em sua garagem, correu para a porta, da qual já se ouvia os gemidos de Lucille, transando com o policial em sua cama, com Amelie trancada em seu quarto, chorando achando que o policial estava machucando sua mãe.

Jerry abre a porta do quarto sem pensar direito, com sua arma em mãos destreinadas e atira contra o policial, que retribui com um tiro certeiro, matando Jerry.

O corpo estava morto, mas a alma de Jerry estava ao lado de Amelie enquanto o policial Stevenson se vestia e planejava a história sobre a briga entre Lucille e Jerry que gerou violência doméstica e ele conseguiu impedir com sucesso, infelizmente tendo que matar Jerry.

O bom pai agora via seu próprio corpo vazar pelo tapete que pagou com seu suor para agradar o gosto da mulher que o traíra.

O “bom” policial virou pai de sua filha que hoje nem se lembra mais de seu pai verdadeiro.

He took my house,wife and daughter

My honor and name

A pig in blue, a pig in blue

Turned my name in scum

Sophie cantava em bom tom enquanto Jerry ouvia sua história sendo contada para uma platéia especial, Amelie que fora ouvir o novo nome do blues da cidade.

Sweet River é uma terra de violência e desilusão, onde a já adulta Amelie chorou seu caminho de volta para casa, quando capotou o carro de seu velho pai, caindo dentro do rio que dava nome à cidade.

Na manhã seguinte a maior surpresa da policia foi encontrar no porta-malas do carro vários pacotes de cocaína com as digitais de Stevenson por dentro dos sacos, junto com um livro caixa com os nomes de seus compradores.

De noite, Sophie afinava seu violão quando viu a uma magra menina negra abraçando Jerry com lágrimas nos olhos, caso isso seja possível entre os mortos tal qual é como os vivos.

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O início – Inferno, purgatório, o brilho e as mortes

Sophie tinha se mudado para Sweet River logo que se formou no colégio fugindo de seu pai, um rígido pastor do vilarejo de Apple Ville, que mandava na cidade se dizendo um emissário de Deus.

Para ele tudo que era diferente era pecado. Negros nasciam negros como a marca de Caim, os judeus deveriam sofrer por preferirem um assassino a seu senhor Jesus e todo e qualquer discrente no mesmo deus deveria sofrer nas chamas do inferno, pois adoram aberrações e falsos deuses.

Inclusive a pequena e pálida Sophie sofria o peso da mão de seu robusto pai desde infante, quando dizia que o homem negro lhe cantava blues para a ajudar a dormir quando ela tinha medo.

Só a pequena criança via esse homem negro, Marcus, que sempre aparecia  nas sombras de seu quarto e desaparecia assustado quando lhe era voltada a luz.

Aos 16 anos, Sophie carregava algumas cicatrizes, das quais mentia ter caído sobre a mesa de centro  da sala ao  tentar limpar a estante sempre que lhe perguntavam sobre a origem delas.

Marcus a acompanhou por anos, muitas vezes provocando pequenos poltergeists pela casa para tentar diminuir os castigos sobre a menina, mas somente piorando a situação dela dia após dia.

Na noite de sua formatura a jovem não pôde comparecer, seria vergonhoso a filha do pastor local aparecer sem poder andar direito.

Sophie aguardou pacientemente pela sua recuperação, esperou uma noite de nevasca e fugiu sem ser vista, deixando somente uma pequena trilha  até o bosque que usou de atalho até a rodovia onde pegou carona até Sweet River.

Conseguiu um emprego como garçonete num bar decadente, com música ao vivo onde disputava gorjetas com os músicos voluntários que iam até lá em busca de cerveja gratuita já que ninguém se importava com o que estivessem tocando.

Os clientes eram sempre os mesmos, alguns velhos bêbados que tentavam diariamente apalpá-la e fingiam que nada estava acontecendo, alguns  caminhoneiros, prostitutas decadentes com perfumes baratos, alguns mortos indignados por terem seus bancos habituais por viventes que não os viam, algumas vezes derrubando seus drinks em suas camisas ou derrubando os banquinhos, causando risadas a vivos e mortos.

Sophie era estranha aos fregueses, sempre desviando de obstáculos invisíveis e muitas vezes pega falando sozinha, dizia que estava ensaiando para testes de teatro.

Um dia a banda que tocava blues bebeu mais do que tocou, tendo que ser levados para casa na caçamba da pick up do dono do bar, deixando para trás seus instrumentos.

No dia seguinte Sophie limpava o bar antes de abrí-lo, como era o costume, mas como estava sozinha começou a cantar e tocar no violão esquecido um trecho de Redemption Song de Bob Marley, a qual ouvia escondida de seu pai quando ele ia para a igreja e ela ficava em casa se recuperando de seus ferimentos.

Cantava despreocupada, em bom som com sua voz pouco liberada sem ser por gritos de dor e ao perguntar o que o cliente desejava.

“Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy,
‘Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look
Huh, some say it’s just a part of it:
We’ve got to ful fill the Book”

Quando seus olhos começavam a se encher de lágrimas pela lembrança, a canção foi interrompida por um homem de óculos escuros que entrara sem fazer barulho e agora sorria e aplaudia.

Era Luís, o dono do Deadly Strike, o bar em que Sophie trabalhava.

Perguntou se Sophie já havia cantado antes profissionalmente e se estaria interessada em substituir a banda costumeira eventualmente caso eles estivessem bêbados demais para tocar.

Aparentemente era um convite precipitado pois o pouco que sabia de música eram alguns poucos LPs que ouvira e o pouco de góspel que cantava na igreja a contragosto.

Pela primeira vez ela queria ter alguém para lhe dizer o que fazer.

Luís era um imigrante mexicano, que conseguiu entrar ilegalmente, ganhou o green card e como membro de bandas mariachis e cozinheiro conseguiu juntar dinheiro o suficiente para abrir seu próprio negócio.

Se voluntariando a ensinar o que sabia de música a Sophie, ele percebeu que poderia ser uma chance de atrair mais fregueses, a bela e pálida morena de olhos claros seria perfeita para agraciar os clientes com sua voz e curvas.

Sophie agora passava seus dias calejando seus dedos no violão esquecido e suas noites carregando  garrafas para os poucos que ainda tentavam acelerar suas cirroses nos becos escuros de Sweet River.

Apesar de cantar diversos estilos, seu amor estava com o blues cantado por Marcus que a acalmava nas noites ajudando a esquecer a ardência dos cortes em suas costas.

Ela cantava com sentimento durante os dias, muitas vezes fazendo os pedestres pararem em frente ao bar fechado para ouvirem suas canções, tanto as cantadas por Marcus, quanto algumas que ela começara a compor.

Era pelas músicas que seu medo e ódio falavam.

Os mortos contavam suas histórias, vida e morte, virando novas músicas, contos de tristeza ou satisfação, contadas pela primeira vez em anos.

Sophie então começou a ganhar sua vida com as mortes.

Era uma noite de inverno em 1986, quando o vapor dos esgotos era visível ao se andar nas ruas de Sweet River, uma cidade mediana próxima a Nova York.

A cidade sobrevivia à sombra das metrópoles, sem grandes indústrias, exceto por madeireiras e uma fábrica de produtos de limpeza que tornavam o ar cinzento e pesado, fedendo a fumaça e “cheiro dos alpes”.

Não se sabia um número exato de prostitutas, mendigos e criminosos foragidos, mas era suficiente para os pais buscarem seus filhos nas escolas e dormirem com armas próximas às cabeceiras de suas camas.

Dentro desse cenário Sophie escreveu sua melhor canção, Sweet Deadly River, a história de uma criança forçada a crescer por outra e que encontrou sua morte na tentativa de viver.